O Integralismo, como a Igreja, é intolerante em matéria de doutrina. O Integralismo, como a Igreja, é tolerante e recebe de braços abertos todos os arrependidos. A Igreja exige dos pecadores que voltam ao seu seio, se reconciliem com Deus, um arrependimento sincero e a penitência. O Integralismo exige dos brasileiros transviados pelo liberalismo ou pelo comunismo a mesma sinceridade de contrição e um juramento de obediência. Assim, os carcomidos, os revolucionários decepcionados “et magna concomitante caterva” poderão vestir a camisa verde, formar ombro a ombro com os nossos milicianos e prestar serviços, talvez pela primeira vez, à causa da nação.

Os integralistas não devem temer essas adesões. Se elas são sinceras, devemos nos regozijar de ter salvo mais alguns patrícios e de ter dado às nossas hostes mais alguns bons soldados. Aliás, nosso júbilo deve ser maior com a entrada de um grande pecador do que com a entrada de brasileiros puros. Porque estes já são nossos e aqueles nós conquistamos. E, quanto mais empedernida for a sua alma marxista ou liberal, maior a nossa vitória em tê-la transformado completamente.

Entretanto, devemos estar sempre vigilantes contra a infiltração de elementos que pretendam mudar os rumos do nosso movimento ou realizar suas ambições pessoais à sombra de nossa bandeira. Para isso, a melhor defesa é aquela intolerância e intransigência em matéria de doutrina e de disciplina. Porque os homens passam e variam ao sabor dos fatos, dos interesses e das circunstâncias, e a doutrina se mantém inalterável, nos seus pontos básicos, através dos séculos. E só uma doutrina assim pode conservar unidos os homens, cujas tendências naturais são para a divisão e a contradição.

Se o Integralismo defender dia e noite a sua doutrina de qualquer modificação por mais ligeira que pareça, poderá zombar de todas as tentativas de elementos infiltrados para destruí-lo. É o segredo da Igreja Católica resistindo aos milênios. Toda e qualquer tentativa esbarrará nesse muro de aço. Os insinceros ou se encolherão ou irão embora. Os sinceros mostrarão que criaram alma nova e que poderão pelo próprio esforço chegar aos altos postos, recompensa de seus novos serviços na sua vida nova. Não foram os grandes pecadores os maiores santos da Igreja? São Paulo não perseguiu o Cristianismo nascente até que a voz do Senhor o acordou do erro? E alguém, depois disso, pode exprobar-lhe o passado, vendo-o pregar aos gentios a palavra de Deus?

Todos são capazes de voltar da estrada de Damasco inundados de luz. O Integralismo é mais do que uma ação política-social, o Integralismo é a vitória da Moral, o primado do Espírito sobre a Matéria. É, pois, além de um movimento de nova vida, um movimento de regeneração. Seus olhos fitam o futuro, mas ele o prepara com os elementos do presente e com os elementos do passado. E somente poderá diminuir as consequências produzidas por esse passado desintoxicando os aparelhos humanos e sociais que ele envenenou. Iluminando com outra luz as consciências, esclarecendo com novos dados os entendimentos, criando a fé sobre as ruínas das desesperanças, ele não poderá regenerar a sociedade sem regenerar os homens que a compõem.

Se as portas do Integralismo estão por esses motivos abertas de par em par aos arrependidos de todas as castas e espécies, se o Integralismo recebe festivamente os filhos pródigos, se pode dar a mesma paga aos trabalhadores da undécima hora, isto não quer dizer que andemos atrás deles ou que os incitemos a procurar os cartões de inscrição. Venham, se sentem como sentimos as dores da pátria; venham, se estão dispostos a tudo dar por ela e a nada esperar como recompensa; venham, se o seu espírito abandonou os orgulhos do êxito e da matéria e é capaz de humilhar-se na presença de Deus.

Não sentindo isso, não venham. Nós não precisamos de adesões, não solicitamos adesões.

Na minha cidade natal [Gustavo Barroso nasceu em Fortaleza – Ceará], havia um velho muito feio que tinha um filho único chamado Jacaúna. Era um rapaz perdido, que só servia para dar desgostos ao seu progenitor. Aos vinte e dois anos, apanhou uma tuberculose galopante e morreu. O velho ficou inconsolável, chorando dia e noite. Um de seus amigos de infância, levando-lhe pêsames, e não sabendo como consolá-lo naquela aflição, bateu-lhe afetuosamente no ombro e disse-lhe:

— Fulano, não te atormentes assim. Tenha paciência! Foi Deus que levou o teu Jacaúna para a sua glória!

Mal acabava com essas palavras, o velho esbravejava junto dele, com os olhos esbugalhados, feio como um sapo, e uns restos de lágrimas correndo pelas faces de couro engelhado:

— Deus?! Ora, vá para o diabo! O Jacaúna, coitado, era um peralvilho, jogava, bebia, não pagava a ninguém, só fazia me dar desgostos… E para quê Deus haveria de querer o Jacaúna, criatura?!

Há muitos Jacaúnas políticos por aí, cuja desmoralização pública é tão grande que os força a procurar abrigo nas nossas fileiras como tábua de salvação. Porque eles sabem que no Integralismo não se admitem os processos em que são useiros e vezeiros, que o Integralismo tem chefes que sabem mandar e se fazer obedecer, que o Integralismo exige ciência e consciência, que o Integralismo possui uma doutrina inamolgável. Sabendo tudo isso e conhecendo-se a si próprios, eles só podem procurar o Integralismo, se não estão arrependidos sinceramente, como capa de pseudo-regeneração que os livre da desmoralização em que mergulharam e lhes permita novas aventuras…

Ora, pergunto eu, como o velho lá da minha terra:

— Para que o Integralismo quer esses Jacaúnas?

 

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