Nós saímos dum século cético, em que a desordem das filosofias varreu a fé de todos os corações, dum século que perdeu o critério das verdades eternas e se deixou guiar pela fraude e pela corrupção generalizadas. Foi o século da análise e da negação. O século atual [século XX] reage, necessariamente, contra ele para o restabelecimento do equilíbrio e da harmonia: é o século da síntese e da afirmação.

Por isso, a democracia-liberal, projeção política duma doutrina filosófica que somente viu a vontade e a razão humanas, o indivíduo, está em vias de desaparecer. Ela apoiava-se em bases falsas que não poderiam sustentá-la por muito tempo— as maiorias quantitativas, as contradições civis dos partidos, a luta sem mercê dos egoísmos individuais e a divisão dos poderes públicos.

“A crise da democracia— escreveu Vladimir Berdiaeff— começou há muito tempo. A primeira decepção foi a própria Revolução Francesa. As democracias modernas encontram-se numa encruzilhada trágica, num estado doloroso de impotência e insatisfação, estraçalhadas pela discórdia e pelas contradições internas. Não há nelas nada de durável, nada de orgânico, nenhum elemento de eternidade. Elas só amam a liberdade no sentido de indiferença ao bem e ao mal, isto é, à verdade e a mentira. A decepção causada pela democracia e a crise que ela atravessa estão em relação com seu caráter personalista e sem substância”.

À sombra delas, aproveitando suas concessões e fraquezas, o socialismo, cujo termo fatal na opinião mais do que autorizada de Proudhon, é o comunismo, ganhou terreno e acabou sendo, no deserto democrático e lamartineano de homens e ideias, por algum tempo, a única ideologia merecedora de atenção. O comunismo veio nas suas águas, fazendo insidiosa e daninha propaganda, procurando destruir nos espíritos tudo quanto se salvara da dissolução do liberalismo, negando todos os valores morais e todas as forças do espírito, sem ter em conta a prudência do velho Kant: “Nem a experiência nem as deduções nos instruem suficientemente para podemos saber se o homem contém uma alma (como substância habitando nele, distinta do corpo e capaz de pensar independentemente deste, isto é, espiritual) ou se a vida não é antes uma propriedade da matéria”.

Esquecido daquela afirmação categórica de Chamberlain de que a história não nos mostra um único exemplo de revolução determinada unicamente pelas causas econômicas e de que a economia é uma ciência moral de base prática, erigiu o fenômeno econômico como pilastra, criador e guia de tudo mais, produzindo superestruturas culturais, mentais e morais. Olvidou que a indústria, o comércio e o trabalho são manifestações de civilização e não de cultura. Porque cultura é sentido moral da vida. E, querendo tudo arrasar, prometeu somente a mediocridade de estômagos fartos e sexos contentes à custa da Família, da Pátria e de Deus.

Todo o Ocidente reagiu contra essa doutrina oriental, que vem de Moscou e da Judeia. A cultura artística e científica dos povos ocidentais mergulha as raízes na Grécia; sua cultura social mergulha em Roma; sua cultura moral mergulha na universalidade transcendental do cristianismo. Eis aí porque o gesto fascista de Roma deteve a marcha das anarquias vermelhas favorecida pela inércia, a indiferença, o egoísmo suicida da anarquia liberal.

Acima dos fascismo pela sua espiritualidade cristã sem eiva de paganismo e cesarismo, pela sua concepção de Estado Revolucionário, dínamo eterno da sociedade, eternamente recompondo os equilíbrios sociais, o Integralismo incarna o espírito do século XX e será a ideia vitoriosa desse século contra o liberalismo do século XVIII e o comunismo do século XIX.

Anúncios